A caminhada até o LIYSF – Depoimento de Luiz F. S. Borges

Lembro que a primeira vez que ouvi falar do Londom International Youth Science Forum (LIYSF) foi em 2014, quando duas meninas do meu estado e de minha própria instituição de ensino haviam sido convidadas pela Rede POC para participarem do evento. Tendo como referência de evento científico internacional apenas a Intel International Science and Engineering Fair (Intel ISEF), eu ainda não conhecia qual era a dinâmica do LIYSF. Pesquisando um pouco descobri que o evento se tratava de uma tradicional conferência de uma das melhores universidades do mundo: o Imperial College London que reunia estudantes de ensino médio de toda a Europa para um intercâmbio de conhecimento durante duas semanas. Após um tempo o fórum se internacionalizou cada vez mais, tendo até mesmo uma extensão a Paris e Suíça, onde se podia visitar a maior máquina construída pelo homem e onde a internet surgiu: o Centre Européen pour la Nuclear Recherche!

LIYSF 2014

Logo dei conta de me informar quais eram os pré-requisitos para se ter um projeto submetido (e quem sabe aceito) no processo de seleção do fórum. No ano seguinte, 2015, com a finalização de uma pesquisa sobre tornar amplificadores de DNA mais baratos e acurados, fui finalmente selecionado pela rede para participar do programa. Infelizmente 2015 foi o início de tempos conturbados para a política brasileira e acabei não conseguindo os recursos do Governo do Estado de Mato Grosso do Sul para participar do evento. Eu já esperava alguma resposta do tipo (que por acaso veio somente 3 meses após o evento acabar, sendo enviada 2 meses antes do mesmo) então meu desapontamento não foi muito grande.

Em 2016 a pesquisa que iniciei na metade de 2015, quando assim que voltei da Intel ISEF 2015, cujos detalhes podem ser vistos aqui https://student.societyforscience.org/blog/doing-science/creating-new-generation-prosthetics, rendeu resultados inesperados, na edição 2016 da maior feira de ciências e engenharia do mundo, até mesmo para os mais otimistas. Pela primeira vez o Brasil, em mais de 20 anos de participação no evento, conquistou o prêmio de 1° Lugar na Categoria de Engenharia Biomédica, o prêmio de melhor da categoria, o Philip V. Streich Memorial Award e um asteroide será batizado com meu nome pela Ceres Connection do MIT Lincoln Laboratory! O prêmio do memorial do estudante Philip dá direito a participação do LIYSF do mesmo ano. Logo eu que havia pensado que nunca mais teria a oportunidade de participar do evento, a conquistei da maneira mais difícil.

Premiação ISEF 2016

Logo após a premiação, quando cheguei ao Brasil, contei com a cortesia da Rede POC em me orientar no ato de inscrição do evento, bem como na aquisição da viagem a Paris e Suíça.

Após encarar meu voo mais longo, cerca de 12h, senti como se tivesse em uma das cenas de Harry Potter quando o trio “desaparata” (ou se “teletransporta”, na linguagem trouxa) para as ruas de Londres e quase são atropelados por um ônibus de dois andares. O evento é um exemplo de integração e troca de experiências entre estudantes de quase todo o mundo e dos principais pesquisadores europeus. Sem contar a experiência de viver como um estudante em uma das melhores universidades do mundo, dividindo o quarto do dormitório com um colega norte americano e fazendo refeições naquelas bandejas.

Primeiro contato com a paisagem britânica

Qual não foi minha surpresa ao, na cerimônia de abertura do evento, descobrir que, por ter ganho o prêmio na Intel ISEF, eu estava como representante dos Estados Unidos da América e não do Brasil. Como cada representante de seu país carrega sua respectiva bandeira, teimei para carregar a do Brasil e assim o fiz. O evento seguiu com palestras, aulas, visitas a laboratórios por toda Londres e os passeios aos pontos turísticos. Temos até mesmo a oportunidade de conhecer o famoso monumento de pedras (Stonehenge) cuja construção é creditada à aliens por certos apresentadores de um certo canal de TV que deveria repercutir apenas conteúdo científico.

Stonehenge

A ISEF pode me ter dado um mini planeta com meu nome, mas uma fração centesimal desta oportunidade de imortalização também surgiu no LIYSF onde meu nome também foi parar em uma escultura de um titã grego.

Meu nome no Atlas

Atlas é o titã grego que personifica a qualidade da resistência (atlaô), ele foi quem liderou todos os titãs na guerra contra Zeus, bem como ensinou os homens a arte da astronomia, e foi condenado a segurar os céus sobre seus ombros. Depois ele foi definido como um dos guardiões dos pilares que sustentam a própria Terra Durante o fórum que participei em Londres, o escultor Tom Tsuchiya (http://www.tomtsuchiya.com/bio.htm) foi convidado para replicar o titã do mito grego durante a semana do fórum. Toda a estátua foi coberta com mapas do mundo inteiro, e, qual foi minha surpresa quando ele escolheu o meu pôster do projeto “Prendendo Fantasmas em Robôs” para fazer parte de sua escultura. Depois de ouvir a história de superação do projeto, desde acusações indevidas em certos eventos até os poucos recursos, ele ficou maravilhado em saber que apesar de tudo nós chegamos ao mais alto lugar no pódio de nossa categoria na maior feira de ciências e engenharia do mundo. Nada melhor que ter o projeto e meu nome gravado neste titã para representar a principal característica que um pesquisador deve ter: RESISTÊNCIA às adversidades que estão prontas para o encontrar no caminho.

Trafalgar Square com a estátua do almirante Horatio Nelson no obelisco

Nos últimos dias de evento como um bom brasileiro (com maioridade recém conquistada), colega de seus amigos e amigas alemães(ãs) e poloneses(as), os acompanhei em um dos pub-taverna mais tradicionais de Londres, o Trafalgar Chelsea Pub. O nome “Trafalgar” não me era estranho, pois a história dos membros fantasma (que minha pesquisa em próteses usa como uma Rosetta Stone) é rastreada a famosa Batalha de Santa Cruz de Tenerife, entre Napoleão Bonaparte e Horatio Nelson.

Pub Trafalgar Chelsea

Antes da famosa batalha, alguns anos antes, o almirante Horatio Nelson teve seu braço direito arrancado com um tiro de canhão francês, enquanto empunhava sua espada. Qualquer um que visitar Trafalgar Square poderá observar que a estátua de Horatio, acima de um obelisco, está sem o braço direito. Sete anos depois do acidente, na véspera da batalha com a marinha napoleônica, Horatio escreveu uma carta (com o braço esquerdo) para a rainha da Inglaterra dizendo que ele tinha certeza absoluta da vitória das forças de sua majestade porque o todo poderoso tinha lhe mandado um sinal inequívoco que a vitória seria da coroa, pois desde a véspera da batalha ele sentia novamente a espada do Reino Britânico empunhada pela sua mão direita. No dia seguinte, armado com sua espada e braço fantasmas e mais dois mil acanhoes porque ninguém precisa dar chance para o azar, o Almirante Nelson devastou a marinha napoleônica, morreu na batalha e entrou para história com o primeiro registro de um membro fantasma em ação.

Imaginando Dumont

Deixar Londres depois de duas semanas de deslumbramento com a cultura e alguns bons estereótipos confirmados foi um pouco difícil, mas tal dificuldade logo já foi sanada pela transferência por trem a Paris, onde cada uma das 3 noites podíamos jantar em um restaurante diferente, não deixando de visitar todos os principais pontos turísticos. Não deixo de destacar a Torre Eiffel por ser a mais famosa, mas sim por ser o símbolo de ousadia que todo brasileiro deveria reconhecer desde a pré-escola, quando um brasileiro, do interior de Minas Gerais, realizou o maior feito de engenharia de sua época: inventar o voo controlado, dando origem à foguetes, dirigíveis e aviões, assombrando milhões de franceses nas ruas de Paris enquanto contornada a Torre Eiffel. Sim, estou falando de Santos Dumont, pois seu mérito vai muito além do avião. Qualquer brasileiro deveria ter em si incutida a certeza que é capaz de realizar o impossível, pois carregamos em nosso DNA o gene Dumont da ousadia. Só para finalizar e divulgar uma história pouco lembrada por brasileiros: um dia depois do suposto voo dos irmãos Wright, o jornal de sua cidade lhes conferia a manchete: “garotos da cidade imitam o grande Dumont”.

Hey I just met you and this is crazy!!! But here’s your Higgs Boson, so Nobel Prize maybe?!

Três noites depois na cidade luz, minha euro-ciencia-trip contava apenas com mais um destino: Suíça. No melhor estilo Anjos e Demônios possível, percorri os corredores das instalações do CERN, que diariamente realiza experimentos que nos revelam segredos sobre a matéria, descobrindo até mesmo que estavam realizando um experimento do Stephen Hawking, semanas depois, seus resultados repercutiram na mídia.

Despedindo-se da Suíça

No caminho de volta para casa, em todas as conexões pelos aeroportos europeus, lembrando de todas as aventuras que vivi e todas as experiências que guardei, com certeza, meu maior orgulho foi saber que tudo isso só foi possível graças ao reconhecimento, pelos Estados Unidos da América, de pesquisa feita por um tupiniquim de 17 anos, aqui no Pantanal, a maior planície alagável do mundo, sobre a luz do Cruzeiro do Sul.

Por Luiz F. S. Borges, ex-participante do LIYSF


Gabriel Menegazzi Conceição                                                                                    Zootecnista pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM                               Representante internacional e editor do blog da Rede POC                                   Email: menegazzi@mail.ufsm.br

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