O acaso me levou para a ciência

Palotina, também considerada a capital da soja no estado do Paraná. Sua população é cerca de 30 mil habitantes… E eu, Bruna, nasci e morei no interior dessa cidade até os 18 anos.

Certa vez em 2012, com os meus 16 e poucos anos, eu ouvi duas frases que mudaram a minha vida:

“Por que você vai se inscrever para participar de uma feira de ciências se você reprovou de ano Bruna? ”

E a outra:

“Estude, trabalhe, persista, e sempre faça mais do que esperam de você. Esta é a maneira de transformar em realidade o que a maioria pensa ser impossível! ” Astronauta Marcos Pontes

Ambas as frases tiveram impactos significativos na minha vida. Uma, fez eu me sentir extremamente inútil, e a outra me deixou demasiadamente esperançosa e pensativa. Então, resolvi escrever um pedacinho da minha história para vocês.

Meu nome é Bruna Poatskievick Pierezan, estudei até a 8° série em escolas públicas e quando passei para o ensino médio, meus pais resolveram me colocar em um colégio particular pois acreditavam em um ensino de maior qualidade. Eu sofri muito. Não conseguia me enturmar com as pessoas, o ritmo era diferente do qual eu estava acostumada e eu me perdia no raciocínio em quase todas as aulas. Me questionava a todo instante do porquê aprender álgebra. Sem contar das dificuldades encontradas nas outras disciplinas. Aquilo era o terror para mim! Tabela periódica, gramática portuguesa, ciclo de Krebs, polias, fórmulas, provas, muitas provas, era horrível. Acabou que reprovei naquele ano, fui debochada o ano todo por ter reprovado em um colégio particular, me senti um lixo por ter jogado o dinheiro dos meus pais fora e me bateu uma dor na consciência gigantesca. Auto avaliações começaram a surgir, e um futuro precisava ser moldado na minha cabeça. Eu só não sabia exatamente como.

Frequentando as aulas do seguinte ano, eu me sentia desconfortável com os olhares das pessoas da minha antiga turma. Deixar essa fase passar foi muito difícil para mim. Até que em uma aula de física, um professor mudou totalmente o rumo que eu iria tomar na vida. Ele falava sobre as estrelas… E despertou tanto meu interesse, que eu não parava de fazer perguntas. Cada resposta era um livro que ele recomendava. Eu li todos, inclusive comprava mais sobre o mesmo assunto. Era emocionante começar a enxergar o universo de outra forma. Com isso eu acabei percebendo que todas as disciplinas eram unidas umas com as outras como uma teia! E então comecei a estudar todas elas da maneira que deveriam ser estudadas. Eu ficava encantada em ver como funcionavam as leis da natureza e a complexidade das coisas.

Teve um dia em que cheguei no colégio, e vi um cartaz no mural do saguão… Se tratava da 2° Fecitec(Feira de ciências e tecnologia na UFPR). NA HORA EU PENSEI: VOU ME INSCREVER! Mas que projeto eu iria fazer? Fui falar com a professora de química. Ela disse que seria minha orientadora caso se eu precisasse.

Fui na biblioteca e comecei a olhar livros, revistas, qualquer coisa que me inspirasse algumas ideias. Folhei quase todas as revistas do “amigos na natureza”, e encontrei uma matéria de uma pesquisadora da UNESP, Milena Boniolo, onde o projeto dela se tratava de um pó feito com casca de banana torrada e moída, e juntamente com cloro, eliminaria os metais pesados da água. Ela concluía a publicação dizendo que só tinha a ideia e não um produto. E eu pensei em fazer um produto!

Levei a ideia até a minha professora, ela disse que a ideia era ótima, mas não existiam maquinas para testar metais pesados na minha cidade, logo os custos seriam altos. E eu fiquei pensando várias coisas. Nunca me esqueço daquela semana, o prazo das inscrições iria vencer e eu nem sabia o que apresentar.

Sempre fui uma aluna mediana, então precisei de ajuda com projeto, escolhi mais dois colegas da minha turma, os quais foram meus eternos companheiros ao longo de todas as feiras que participamos, e fomos no laboratório com a professora conversar e pensar em outras ideias.

Na época havia uma epidemia muito forte de dengue no nosso município, uma professora tinha morrido, e nós pensamos inocentemente em testar para ver se matava os mosquitos. As larvas no caso. Mas onde encontraríamos as larvas? Dava para conseguir alguma doação para testar? Sim! A secretaria municipal da saúde nos cedeu várias, fizemos um chá com o pó feito com a casca da banana torrada, testamos em tubos de ensaios com controle e tratamento e em menos de 24 horas matou todas as larvas.

FOI UMA ALEGRIA ENORME! Na verdade, até inacreditável e espontâneo. Fiquei MUITO FELIZ!

Testamos de novo para ter certeza, e morreram todas de novo.

Nos inscrevemos então com o projeto: UMA NOVA ARMA CONTRA A DENGUE, com as respectivas restrições do edital.

Sobre participar da FECITEC: Uma feira de ciências municipal, concorrendo com diversas escolas e projetos bons onde sempre focamos em atender bem quem vinha aos nossos estandes para que as pessoas se sentissem motivadas a chegar em casa e testar de verdade o nosso larvicida! Distribuíamos amostras para todos, e umas balas de banana!

Na premiação ficamos com o 3° lugar, e de brinde uma palestra maravilhosa com o Astronauta Marcos Pontes, onde ele contou sua trajetória de vida, e eu fiquei muito inspirada e maravilhada com a sua história.

Cheguei em casa e pendurei a medalha na parede. Minha primeira medalha de uma feira de ciências. Eu adorava ir dormir olhando para ela. De alguma forma aquilo me inspirava a ir para o colégio, eu tinha aulas maravilhosas de professores mais maravilhosos ainda. Inclusive queria ser professora. Eu gostava muito de física, e queria despertar nas pessoas o mesmo interesse que o meu professor despertou em mim. Estava decidida disso!

Passei para o 2° ano do Ensino médio, e em março fomos para a FEBRACE(Feira de ciência e engenharia da USP) com o mesmo projeto! Nos inscrevemos e nos chamaram.

Foi COMPLETAMENTE DIFERENTE da FECITEC! Era maior e mais rígido. Seguimos com o mesmo propósito de recepcionar bem as pessoas para que elas se sentissem motivadas a testar o nosso larvicida em casa, e distribuíamos as amostras. Fizemos amizades, visitamos os outros estandes, mas não fomos premiados. Recebemos várias críticas construtivas dos avaliadores e anotamos todas.

Uma das sugestões foi de que nós testássemos com outras cascas de fruta.
Quando voltamos, nós testamos cascas, folhas, chás, saímos testando tudo hehe
Chegamos a resultados melhores do que os já obtidos!

Antes nós tínhamos somente o pó da casca da banana matando as larvas em 24h.

E com os testes descobrimos o poder da folha de mandioca! As larvas morriam em cerca de 2h!

A casca do limão, folhas de guaco e sal, também foram bem eficazes.

Certo! Temos larvicidas naturais que funcionam! Agora precisamos de inseticidas!

Por conta do odor forte, o da folha de mandioca foi descartado, mas o com a folha de guaco matava o mosquito na hora, e ainda deixava um cheirinho de chá no ambiente.

Depois de alguns meses, recebemos um e-mail da REDE POC dizendo que fomos avaliados na FEBRACE por eles, e que o nosso projeto havia sido selecionado para participar de uma feira de ciências no Peru. A EUREKA.

Foi uma alegria enorme! Aquele sentimento de satisfação com o que acontecia comigo era maravilhosamente inexplicável.

O Peru é um país tão rico culturalmente falando, e fiquei mais impressionada ainda por poder conhecer mais sobre aquele país.

A feira científica deles é mais voltada a projetos sustentáveis, eu escrevi um depoimentos só sobre o Peru aqui: http://www.redepoc.com/2014/01/depoimento-de-participacao-na-feira-de-ciencias-eureka-2013-peru/

Foi uma experiência mágica, fiz várias amizades que levarei para a vida!

Ganhamos o 1° lugar na categoria saúde pública. Quando chamaram os nomes no palco eu fiquei branca, fui a última a levantar da cadeira porque realmente não tinha caído a ficha.

Voltando para o Brasil, seguimos com os estudos para concluir o ensino médio, ano de vestibulares etc. E nos selecionaram para participar do LIYSF.

O Evento era a nível mundial! 425 participantes divididos entre 64 países. O maior fórum juvenil do mundo.

Contamos com a ajuda de duas TVs do Paraná para divulgar o projeto com intuito de conseguir recursos financeiros para a viagem pois o governo não contribuiu em nada. A baixo uma das reportagens que gravamos:

http://redeglobo.globo.com/rpctv/noticia/2014/06/bom-dia-pr-alunos-do-ensino-medio-criam-receita-para-combater-dengue.html

A partir daí o nosso projeto ganhou uma visibilidade maior, e conseguimos uma boa parte do dinheiro necessário para o fórum, o que facilitou e possibilitou a nossa viagem.

O LIYSF me possibilitou um contato maior com a ciência, e me ensinou a jamais sair do Brasil sem saber falar em inglês hehe foram 2 semanas, as mais incríveis, engraçadas e produtivas que eu já tive.

Conheci laboratórios, museus, lugares e pessoas que me deixaram lembranças incríveis! Destaque aos museus, eu passava horas dentro e não queria sair, realmente tinha muita coisa para olhar e tudo me interessava! A visita que eu mais gostei foi à Oxford!

Quando eu fui para o Peru, cogitava a hipótese de cursar geofísica, acreditando ser a área da física que estuda o planeta Terra. Quando fui à Londres, eu cogitava a hipótese de mudar para geologia, e retornei para o Brasil mais decidida ainda! É ISSO QUE EU QUERO! GEOLOGIA!

E hoje eu faço o curso dos meus sonhos, planejo me formar e seguir na academia ou no mercado de trabalho (difícil decidir agora).

Quando fui para o Peru, eu senti orgulho do Brasil pela primeira vez.
Quando fui para o LIYSF senti orgulho do Brasil pela segunda vez.
E quando descobri as várias medalhas que estudantes brasileiros ganham em olímpiadas de matemática e física fora do Brasil, fiquei muito surpresa!

Vivemos em um país onde os professores não são valorizados! Então prestem atenção naquela aula que as vezes parece ser chata, valorize as oportunidades que a vida oferece.
Foi prestando atenção em uma aula de física, depois de ter reprovado nela, que eu tive a honra de representar o Brasil em uma feira de ciências. Porque nós não somos somente o país do carnaval e do futebol!

Obrigada a minha família que sempre me apoiou e me incentivou em cada conquista dessas! Ao Colégio Cecília Meireles, aos nossos patrocinadores, e a REDE POC por sempre incentivar feiras de ciências e exposição de projetos em todo o Brasil!


Bruna Poatskievick Pierezan, atualmente é acadêmica de Geologia na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – RS.


Gabriel Menegazzi Conceição                                                                                    Zootecnista pela Universidade Federal de Santa Maria – UFSM                               Representante internacional e editor do blog da Rede POC                                   Email: menegazzi@mail.ufsm.br

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